Quando a verdade é substituída pelo julgamento: uma reflexão sobre o caso
Domilene Borges


Na última sexta-feira, 06 de março, nós, colaboradores do Hospital Materno Infantil Dr.
Joaquim Sampaio fomos surpreendidos com a notícia da saída da nossa Diretora Geral,
Domilene Borges. A informação, divulgada rapidamente e amplificada por diversos
veículos de comunicação, provocou tristeza, perplexidade e, sobretudo, muitas perguntas
entre todos nós que convivemos diariamente com a realidade da unidade hospitalar.
Mais do que a mudança na gestão, o que causou profunda inquietação foi a forma como o
nome de Domilene passou a ser exposto publicamente, associado de maneira direta e
quase imediata ao caso envolvendo o paciente Heitor, pelo que sabemos, mesmo antes
da conclusão de qualquer investigação.
Na condição de profissionais que atuamos em um espaço de saúde, precisamos afirmar
que entendemos que a situação envolvendo a criança é grave e merece toda a atenção
das autoridades, da sociedade e das instituições responsáveis. Nenhuma ocorrência que
envolva a saúde de um paciente, especialmente de uma criança, pode ser tratada com
descaso. A apuração rigorosa dos fatos é necessária e a responsabilização, caso exista
culpa comprovada, também deve ocorrer.
Mas justamente por se tratar de uma situação séria, ela exige responsabilidade, prudência
e compromisso com a verdade e não julgamentos precipitados ou narrativas simplificadas.
Entre muitos de nós que somos trabalhadores do hospital, cresce um questionamento que
não pode ser ignorado: por que, em um caso ainda em investigação, o foco das
acusações recaiu quase exclusivamente sobre o nome de Domilene Borges?
Hospitais não são estruturas simples, nem funcionam a partir da decisão isolada de uma
única pessoa. O Sistema Único de Saúde é construído sobre princípios de gestão
compartilhada, corresponsabilidade institucional e atuação multiprofissional. Cada
processo assistencial envolve diferentes níveis de decisão, protocolos técnicos, setores
administrativos e equipes especializadas.
Quando ocorre um evento adverso dentro de um serviço de saúde, a investigação
responsável exige a análise de toda a cadeia de processos: protocolos assistenciais,
segurança do paciente, gestão de insumos, organização administrativa e fluxos
institucionais.
Ignorar essa complexidade e direcionar, de forma quase imediata, a responsabilidade a
uma única pessoa levanta dúvidas legítimas sobre o que realmente está sendo discutido
no debate público.
Outro ponto que merece reflexão é o silêncio em torno de outras responsabilidades
institucionais que também fazem parte da dinâmica hospitalar. Onde estão os
questionamentos sobre os processos administrativos? Sobre a gestão de insumos? Sobre
os setores responsáveis pela segurança do paciente? Sobre os diferentes níveis técnicos
que compõem a estrutura de funcionamento de um hospital?

Por que esses elementos desapareceram do debate que foi encaminhado ao público?
Essas nossas perguntas não buscam desviar a atenção da investigação. Pelo contrário:
buscam ampliá-la, para que ela seja justa e completa.
Também nos chama atenção o apagamento da trajetória profissional de Domilene no
campo da saúde pública. Antes de ocupar a direção do Hospital Materno Infantil,
Domilene já possuía uma história consolidada na gestão do SUS, marcada pelo
compromisso com a ética, com a responsabilidade administrativa e com a defesa de uma
saúde pública de qualidade.
Durante a pandemia de Covid-19, um dos momentos mais críticos da história recente da
saúde pública, Domilene esteve à frente do Núcleo Regional de Saúde, coordenando
ações que garantiram assistência à população da região. Em um cenário de medo,
escassez de recursos e pressão institucional, sua atuação foi marcada por articulação,
responsabilidade e presença constante na condução das estratégias de enfrentamento da
crise sanitária.
Essa história também faz parte da verdade.
No entanto, pouco ou nada disso foi considerado nas narrativas que passaram a circular
após o caso envolvendo o paciente Heitor.
Outro aspecto que preocupa profundamente é o tratamento dado à pessoa humana nesse
processo. Domilene não é apenas uma gestora pública. É filha, irmã, tia, amiga. É parte
de uma família que hoje também enfrenta o peso da exposição pública, das acusações e
das narrativas que se espalham com rapidez nas redes sociais e nos espaços de
comunicação.
A dignidade da pessoa humana deveria ser um princípio básico em qualquer debate
público especialmente quando se trata de alguém cuja trajetória profissional sempre
esteve vinculada ao serviço à população.
Entre nós, que somos trabalhadores do hospital, também surgem inquietações sobre os
movimentos que parecem atravessar essa situação. Não se trata apenas de um debate
técnico ou institucional. Há sinais evidentes de disputas, reposicionamentos e articulações
que ultrapassam o campo da investigação dos fatos.
Isso levanta uma pergunta inevitável: quem ganha com a destruição pública de uma
trajetória profissional?
Outra contradição que chama atenção é a mudança repentina de discurso de alguns
setores. Durante muito tempo, parte da mídia direcionou críticas constantes ao Hospital
Materno Infantil. Agora, observa-se uma postura quase celebratória diante da mudança na
gestão.
Essa inversão abrupta também merece ser observada com atenção pela sociedade.
Entre nós trabalhadores da unidade, o clima é de apreensão. Gostaríamos de falar
publicamente sobre o que pensamos e sobre o que presenciamos no cotidiano do
hospital. No entanto, o medo de perseguições e de perda do emprego impede que nossas
vozes apareçam com nossos nomes e rostos.
As nossas conversas acontecem nos corredores, em diálogos discretos, muitas vezes
marcados pela preocupação e pelo receio.
Mesmo assim, o silêncio absoluto também se tornou impossível.

Foi por isso que decidimos escrever este texto. Não para negar a gravidade do caso
envolvendo o paciente Heitor. Não para impedir que os fatos sejam investigados. Mas
para lembrar que justiça não se constrói com julgamentos antecipados, nem com a
destruição pública de reputações.
A sociedade precisa conhecer a verdade completa, não versões simplificadas ou
direcionadas.
A investigação precisa alcançar todos os níveis de responsabilidade envolvidos,
respeitando os princípios do SUS, da gestão compartilhada e da corresponsabilidade
institucional.
E, acima de tudo, é necessário preservar aquilo que deveria ser inegociável em qualquer
sociedade democrática: o respeito à dignidade da pessoa humana.
Antes de transformar uma trajetória inteira em condenação pública, é preciso perguntar
com honestidade: estamos realmente buscando justiça ou estamos apenas assistindo a
mais um episódio em que interesses e disputas de poder se sobrepõem à verdade?
Essa é uma reflexão que não diz respeito apenas a Domilene Borges.
Diz respeito a todos nós.

Colaboradores do Hospital Materno Infantil Dr. Joaquim Sampaio
(Texto coletivo para reflexão da sociedade)

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